O que acontece quando uma pessoa adulta, madura (vamos e venhamos, quem é verdadeiramente maduro e adulto?) resolve com a mente e o coração abertos ler e reler os ensinamentos de alguém de muita sabedoria destinados a seus conterrâneos, pessoas impregnadas de uma forte tradição religiosa?
Ensinamentos em uma linguagem cotidiana, em parábolas de temática rural, comparações com o joio e o trigo, com a profissão de pescador
ou de semeador.
Ensinamentos que apesar de sua aparente simplicidade atravessaram dois milênios.
Respondendo então à pergunta, o que acontece é este livro. O "Cristão do terceiro milênio", um livro despretensioso mas cheio de honestas
reflexões.
A partir da leitura de textos do Evangelho, na maioria dos capítulos, ele discorre sobre conteúdos como Fraternidade, o mundo das ilusões que nos envolve, contrapõe a forma e a essência, o reconhecimento das próprias aptidões para a evolução pessoal, as armadilhas da vitimização, a necessidade de mudança de comportamento para poder ir em frente a paz, o perdão das ofensas gerando o autoperdão, a sabedoria de se evitar discussões, de não se entrar em conflitos entre religiões,
posições políticas, tema extremamente contemporâneo assim como o respeito à diversidade.
Impossível não pensar "mas como eu já li isso e me passou despercebido?".
No capítulo Despersonalizar-se a aproximação com princípios budistas se insinua.
Favor versus caridade, Conhecimento versus sabedoria, Identificar as prisões, Sair da imobilidade.
Em alguns capítulos (XIII, XIV e XX, XXI) ele enfrenta a terrível pergunta "por que coisas ruins acontecem a pessoas boas?".
Reconhece a nossa fé vacilante, a "Noite escura da alma" de São João da Cruz, quando fala da fé inabalável, de tão difícil alcance.
O desapego, palavra tão moderna, mas só para quem não leu Lucas 18:18-25 como relembrado no capítulo Desapegar-se.
O equilíbrio entre não conseguir ver Deus em nada e ir-se ao extremo de considerar "ser tudo espiritual".
Esclarece uma das passagens de mais difícil entendimento "Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil" (Mateus
5:40-41).
O bendizer, o olhar julgador, A paz e o tempo de Deus, tudo o autor vem transformando em lições de mais fácil apreensão.
"O livre-arbítrio é um atributo do ser racional", ele escreve.
Inicia sempre os capítulos com citações e termina com uma pergunta.
Que faz inicialmente a si mesmo e por isso não nos parece uma cobrança, mas soa como um doce convite.
Aceite o convite. Vamos juntos.
Ivens Cuiabano Scaff
Médico, poeta e escritor